Ah, o café da manhã... “Dulce de leche” nas embalagens individuais, iguais de manteiga... Num pãozinho diferente, que parece uma massa folhada só que mais seco, o café não é lá essas coisas, mas quebra o galho.
Quando saímos de Salta já estava quente, só de arrumar a moto já estava suando. Enquanto os meninos lubrificavam as correntes das motos, tarefa que sempre me excluíam, fui olhar os lojinhas que ainda estavam fechadas, só para ver... Já que não terei espaço pra levar nada...
Cruzamos com um pessoal de bike, se nós somos loucos de fazer uma viagem assim de moto, imagina de bike!
Estava distraída, vagando em pensamentos sobre os rios secos, ou sobre os malucos de bike, ou pensando na morte da bezerra, quando o Ri me cutuca e aponta algo e quando pergunto o que é ele responde, as montanhas. E então vi bem distantes , montanhas que de longe já pareciam enormes, e me perguntava será que já estávamos perto da Cordilheira dos Andes? As montanhas foram chegando, nos envolvendo, e quando percebi, estávamos rodeados de montanhas.
Paramos num “mirador”. A visão era um gigantesco rio seco. Finalmente descobri porque tantos rios secos: o degelo dos Andes, que a cada verão descongela milhões de litros de água que descem as cordilheiras arrastando tudo... Pelo menos um mistério resolvido. Mas lá mesmo, outro mistério surgia: o da água na estrada pra Difunta Correa, além do outro sem resposta: as casinhas vermelhas. Eu estava morrendo de vontade de fazer xixi, mas ali não tinha nenhum matinho... Falamos pros meninos seguirem e parei depois pra ir ao banheiro.
O cenário mudava rapidamente. Meu Deus! Eu nem acreditava que estava ali mesmo.
Numa fiscalização policial, um dos guardas falou alguma coisa pro Ri, como ele não entendeu, parou no acostamento e já foi pegando a Carta Verde, mas o guarda disse que não queria, ele só queria avisar que o Passo Jama, a fronteira entre Argentina e Chile, estava fechado e com nevasca, que seria impossível chegar em San Pedro do Atacama, nossa cidade destino do dia. Perguntamos aos guardas se tinham visto outras duas motos juntas com brasileiros e disseram que não. Um carioca numa moto pequena, 300 cilindradas acho, sozinho, indo pra lá também, que estava se preparando pra sair, disse que eles tinham passado direto. Chegamos a Purmamarca. A última cidade antes da Fronteira. Encontramos os meninos, cada um num canto. Quando nos reunimos, outros motociclistas disseram que estava muito feio lá pra cima, que estava tendo racionamento de água e comida e que não havia lugar pra dormir. Decidimos seguir nosso plano original e seguir em direção à fronteira, se desse pra passar, passaríamos, mas se a estrada realmente estivesse intransitável, voltaríamos, mas pra isso teríamos que abastecer, pois se tivéssemos que voltar a gasolina de nossos tanques não daria. Tivemos andar um pouco pra chegar em Tilcara, onde tinha posto de combustível e advinha: fila!
Enquanto os meninos ficavam na fila, debaixo do sol, eu fui à um simpático restaurante do lado do posto, fui no banheiro e comprei umas empanadas e refrigerantes. Todo mundo devorou as empanadas rapidamente, então voltei e comprei mais. E nada da fila andar... Depois de sei lá quanto tempo ( é esquisito pensar em tempo, perdemos a noção dele, as vezes muitas horas pareciam voar e outros minutos levavam horas...) conseguimos abastecer, recarregamos os camel backs, colocar os forros na jaqueta e calça seguimos em direção ao Andes.Estávamos aos pés do gigante. E eu estava surtando! Queria filmar e fotografar tudo que via. Era tudo lindo. Cada montanha exibia uma variedade imensa de cores. Um festival para os olhos. Casas que se camuflavam nas montanhas. Vilas inteiras camufladas nas montanhas. Cemiérios camuflados na montanha. Tudo muito diferente da beleza que estamos acostumados no Brasil. Ao mesmo tempo que tudo é lindo e emocionante, parece tudo morto, sem vida. Com certeza um espetáculo da natureza.
Depois de Purmamarca a estrada era cheia de curvas fechadas, me lembraram um pouco a Serra do Rio do Rastro em Santa Catarina. Nas primeiras curvas o medo apareceu e fechei os olhos, mas depois pensei que não podia continuar de olhos fechados e deixar de sentir o frio na espinha. Abri os olhos e aproveitei cada arrepio. E que visão era aquela? Algo que meus olhos nunca tinham visto antes. Eu achava que já eram as Cordilheiras, mas depois o Ri falou que ainda não eram. Se eu já estava emocionada ali, imagine quando chegasse nas Cordilheiras...
Na estrada encontramos vários grupos de moto de brasileiros. A gente sempre acaba se cruzando, um grupo parava pra tirar fotos e a gente seguia em frente, depois a gente parava e outros no passavam, e assim seguíamos viagem sempre com as mesmas pessoas.
Essa etapa da viagem foi muito esperada, então a cada curva dava vontade de parar, não só pra tirar fotos, mas pra compartilhar o momento com os outros. E em todas as paradas eu e o RicardoM nos abraçávamos felizes de estarmos onde estávamos.
Essa etapa da viagem foi muito esperada, então a cada curva dava vontade de parar, não só pra tirar fotos, mas pra compartilhar o momento com os outros. E em todas as paradas eu e o RicardoM nos abraçávamos felizes de estarmos onde estávamos.
Numa curva, paramos pra tirar foto, mas quase não deu pra ver nada, o tempo estava fechando. Subimos na moto pra seguir e já estava tudo aberto. O Ri comentou como o tempo estava inconstante, como as coisas mudam em uma fração de segundo. A natureza já estava mostrando sua força para nós.
Curvas e mais curvas... Eu já estava até curtindo a sensação e estava de olhos abertos o tempo todo.
Ao longe se via um mar branco. Era um salar. Paramos e eu já fui correndo pisar no salar, o RicardoM ficou tirando foto de umas crianças que ficaram babando com nossas motos. A primeira coisa que fiz foi pegar o sal e botar na boca, e num é que era salgado! Tiramos as tradicionais fotos... Tinha um casal de brasileiros parados lá antes de nós. Tiramos fotos pra eles e eles pra nós. Não perdemos muito tempo lá, afinal já tínhamos perdido tanto tempo em tantas outras coisas sem importância...
Depois o RicardoM nos disse que quando ele estava pela estrada, um cara mal encarado, que deveria até ser comparsa dos outros dois fez as cabras atravessarem a estrada bem na sua frente, ou pra forçá-lo a parar ou para derrubá-lo, mas graças a sua destreza na pilotagem, escapou por um triz.
Quando passamos de novo pelos dois malandros ,os dois ficaram nos olhando sem entender nada. Na volta os dois já não estavam lá, se eles não tinham gasolina como é que saíram de lá?! Mais pra frente encontramos os dois, entrando numa casa, mirei a máquina e tirei uma foto dos dois...
Meu Deus! Quantas emoções.
Logo depois avistamos uns bichinhos... vicunhas... Depois llamas... Pra levantar o astral. Foi muito emocionante ver esses animais tão pertinho de nós.
Passamos praticamente um dia inteiro no meio de montanhas. Quando achava que o cenário poderia começar a ficar repetitivo, me surpreendia com um visual totalmente novo. Então caiu a ficha de onde estava. Eu estava entrando na Cordilheira dos Andes!
Aquela imensidão de terras! Imaginei que poucos metros longe da estrada, já seriam suficientes pra perder totalmente o rumo. Comecei a ter noção da magnitude do lugar que meus pés estavam pisando. Comecei a agradecer a Deus pela oportunidade de estar nesse lugar maravilhoso, agradeci a Deus por estar fazendo essa viagem ao lado de meu companheiro e grande amor, depois de tantas coisas que passamos, nosso amor se fortaleceu tanto que aquele lugar se tornava pequeno, mas era eu quem estava se sentindo pequena, no meio daquela imensidão tomei consciência de quão pequenos somos, independente do tamanho dos nossos sonhos ou da grandeza da nossa vida. Quando comecei a falar pro Ri o quanto eu o amava e o quanto estava amando estar ali com ele, minha garganta sentiu um nó descer e eu comecei a chorar. Chorei incontroladamente. As lágrimas escorriam dos meus olhos sem parar. Não conseguia dizer mais nada, só chorava. Acho que nunca tinha ficado tão emocionada antes.
Já estava mascando folhas de coca, e cada vez que a gente parava, podia sentir os efeitos da altitude.
O tempo começou a esfriar um pouco, mas eu estava preparada. De longe vimos nuvens jogando água nas montanhas a frente, ou neve... O vento estava cada vez mais gelado. A moto que acudimos, estava junto conosco e a menina já estava tremendo, morrendo de frio. Eu ainda estava bem, mas já estava cheia de roupa. E então vimos a neve nas montanhas, bem longes de nós. Ficamos bem emocionados, nem eu nem o Ri tínhamos visto neve de perto.
Um pouco antes da fronteira da Argentina com Chile tinha um posto, enquanto os meninos abasteciam, entrei na conveniência pra tomar um café, pra esquentar um pouquinho. A menina da moto que estava com a gente estava quase congelando, eles decidiram não entrar no Chile naquele dia, entrariam só no dia seguinte, e conseguiram pegar a última vaga no hotel do posto. Nós decidimos seguir.
Como estava com o copo de café falei pra Ri entrar na fila da aduana que eu ia caminhando, afinal eram só 200m. Quando cheguei nos meninos, não conseguia nem falar, meu coração estava palpitando, estava tonta, minha boca estava seca, e o frio estava castigando, afinal estávamos a 4200 metros de altitude, uma simples caminhada parecia uma maratona.
Como estava com o copo de café falei pra Ri entrar na fila da aduana que eu ia caminhando, afinal eram só 200m. Quando cheguei nos meninos, não conseguia nem falar, meu coração estava palpitando, estava tonta, minha boca estava seca, e o frio estava castigando, afinal estávamos a 4200 metros de altitude, uma simples caminhada parecia uma maratona.
Na fila, uns argentinos vieram falar conosco, eram duas famílias amigas que estavam viajando de férias. Muito simpáticos, ao contrário da maioria dos seus conterrâneos. Quando conseguimos finalmente parar as motos e os meninos entraram na aduana e eu fiquei olhando as motos, que estavam cheias de coisas soltas. O hermano Francisco me fez companhia e batemos altos papos. Francisco é fumador, então estava com cilindro de oxigênio e me deu um pouco, na hora não senti muita diferença. Quando os meninos voltaram com a papelada ok, precisava ir no banheiro e o Ri foi comigo, e ainda bem que ele foi, pois quando entrei no prédio, fiquei tonta na hora. O local era totalmente fechado, cheio de gente respirando o mesmo pouco ar, era quase impossível respirar lá dentro. Fui rápido ao banheiro e fomos embora. Os meninos contaram que estavam na fila lá dentro e ouviram um barulho, o Ri olhou pra trás e uma criança tinha desmaiado e caído de cabeça no chão, por causa da altitude, eles disseram que os funcionários do governo argentino socorreram a criança tão rápido quanto tartarugas.
Ah, o ônibus com os catarinas estava lá faziam três horas e pelo visto iam demorar a sair de lá. E umas motos de brasileiros saíram um pouco antes de nós.
Pegamos a estrada, eu não tinha noção que a aduana chilena ficava tão distante da aduana argentina, são 160km que terminam dentro de San Pedro de Atacama.
Saímos da aduana argentina andamos um pouco e a noite começou a cair. O frio veio junto com a noite. E então começou a chover, e então senti as gotas caírem com força e espirrarem, não eram gotas e sim pedras. Sim, era granizo! Mas a aventura não parou por aí. Logo depois da chuva veio a neve! Se eu não estivesse sentindo tanto frio até ia achar lindo. A essa altura as baterias das máquinas já tinham acabado e não consegui registrar o ponto alto da viagem. Paramos pra colocar a capa de chuva e antes coloquei mais um fleece e cachecol, e só agora foi que o RicardoM colocou suas luvas, até agora o maluco estava de mãos nuas. Estava com tanto frio que não consegui aproveitar nada, estava muito escuro, apesar da lua cheia. Quando começamos a andar o vento batia e cortava, eu não enxergava nada a minha frente, mas o Ri disse que estava vendo tudo. Me concentrei em ficar atrás do Ri, pra não ver que não estava vendo nada, e portanto não entrar em pânico. Atingimos 4836 m de altitude. Nunca tinha sentido tanto frio na vida, o frio era tanto que comecei a apagar, acordava com minhas pernas pulando, elas não estavam nem tremendo mais, estavam pulando. Me esforçava pra ficar de olhos abertos mas era impossível. Mais do que nunca, não poderia dormir, com chuva, neve e temperatura a baixo de zero, a pista se tornava escorregadia, e uma vacilada minha poderia levar a um tombo feio.
Finalmente os ventos começaram a esquentar, e eu comecei a acordar e já dava pra ver as luzes de San Pedro, foi mais uma vez uma grande emoção.
Chegamos na aduana, que já era na entrada da cidade. O ambiente estava bem estranho, estava muito escuro, já passava da meia noite. Desci da moto pra perguntar pro oficial onde parar e ele nos indicou um lugar que tinha outras motos, o guarda nos falou para pararem as motos lado a lado com as outras, que estavam paralelas à guia. A aduana estava cheia, e então os meninos foram cuidar das burocracias e eu fiquei cuidando das motos. Eu estava morrendo de fome e de dor de cabeça. Depois de nós chegaram dois gaúchos, que estavam com mais duas motos que ficaram pra traz, na travessia , uma das motos era carburada e estava sofrendo um bocado com a altitude. O tempo parecia que tinha parado. E então os brasileiros das BMs, que estavam lá em cima na aduana argentina, foram dispensados e queriam sair, como eles pararam as motos errado, eles ficaram presos por nós. Um babaca queria que eu tirasse a moto, expliquei que não pilotava, e consegui chamar o RicardoM, enquanto ele vinha tive que ouvir do guarda: “É assim que vocês costumam parar as motos no seu país?”, e tive que ficar quieta, afinal era um oficial chileno. E então o babaca queria tirar a moto do Nairo de qualquer jeito, e eu não deixei. Enfim, o Ricardo arrumou a moto do Nairo e o babaca nem agradeceu... fdp... O tempo se arrastava. Atrás de nós tinha um carro parado com um família argentina, quando o fiscal foi inspecionar o carro da família, achou frutas, e saiu com elas na mão. O homem ficou tão irritado, gritava, as crianças choravam e ele gritava pra ela: “Cala boca, carajo!” Eu baixei minha cabeça e fiquei quietinha de vergonha por aquela mulher. Depois o ônibus que estava parado desde tarde, também foi embora. Todos estavam indo embora, só tinham as motos agora.
Eu não estava mais agüentando ficar ali, sozinha com as motos. Chamei o Ri e os meninos e eles levaram a moto pra perto de onde estavam e consegui relaxar um pouco, pelo menos agora estava junto de todos. Os fiscais estavam de sacanagem. Estavam provocando os brasileiros ao máximo. Um deles quando percebeu que o documento da moto era de outra pessoa, perguntou por que ele não tinha uma moto dele, e o gaúcho responde: “Não tenho dinheiro!” a resposta do guarda não podia ser pior: “Essos son los hijos de Brasi, hijos de puta!”
Diante dessa palhaçada toda, nos restava esperar a boa vontade deles. Na hora de inspecionar as bagagens, abrimos apenas um dos três baús e ele disse que tava tudo certo. Mas depois fecharam tudo e ficamos lá esperando nos devolverem os documentos. Enquanto esperávamos os outros gaúchos chegaram. Além da moto carburada penar pra subir, a garupa da outra moto passou muito mal com a altitude, ela chegou até a vomitar. Chegaram quase duas horas depois dos companheiros e estavam acabados.
Quase duas horas depois conseguimos pegar os documentos e vistos. Mas nem tudo eram flores, ainda teríamos que achar o hotel, que era o único da viagem que tínhamos feito reserva. O GPS funcionou direitinho e achamos o hotel, mas ficamos decepcionados, as fotos eram bem melhores. Acordamos o menino da recepção, preenchemos a ficha jogamos tudo nos quartos e fomos procurar um restaurante pra comer alguma coisa.Depois de pouco andar descobrimos que só conseguiríamos comida àquela hora, quase duas da manhã, em um lugar então seguimos direto. Comemos e fomos pro hotel desmaiar.
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