terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Atacama - Quinto dia - 06/01


Ah, o café da manhã... “Dulce de leche” nas embalagens individuais, iguais de manteiga... Num pãozinho diferente, que parece uma massa folhada só que mais seco, o café não é lá essas coisas, mas quebra o galho.

Quando saímos de Salta já estava quente, só de arrumar a moto já estava suando. Enquanto os meninos lubrificavam as correntes das motos, tarefa que sempre me excluíam, fui olhar os lojinhas que ainda estavam fechadas, só para ver... Já que não terei espaço pra levar nada...





A estrada de Salta a Jujuy me impressionou muito pela quantidade de rios secos. A cada ponte que cruzávamos por cima de um grande rio seco, alguns apenas com um fiozinho de água cheios de pedras redondas insinuando que muita água já tinha passado por lá, eu ficava mais incafifada, não estava entendendo... Por que será que tinham tantos rios secos assim? Será que estávamos na seca? Será que fizeram alguma merda na natureza pra secar tudo assim? As perguntas enchiam minha cabeça e eu me pegava distante... perdida em pensamentos...

Cruzamos com um pessoal de bike, se nós somos loucos de fazer uma viagem assim de moto, imagina de bike!

Estava distraída, vagando em pensamentos sobre os rios secos, ou sobre os malucos de bike, ou pensando na morte da bezerra, quando o Ri me cutuca e aponta algo e quando pergunto o que é ele responde, as montanhas. E então vi bem distantes , montanhas que de longe já pareciam enormes, e me perguntava será que já estávamos perto da Cordilheira dos Andes? As montanhas foram chegando, nos envolvendo, e quando percebi, estávamos rodeados de montanhas.

Paramos num “mirador”. A visão era um gigantesco rio seco. Finalmente descobri porque tantos rios secos: o degelo dos Andes, que a cada verão descongela milhões de litros de água que descem as cordilheiras arrastando tudo... Pelo menos um mistério resolvido. Mas lá mesmo, outro mistério surgia: o da água na estrada pra Difunta Correa, além do outro sem resposta: as casinhas vermelhas. Eu estava morrendo de vontade de fazer xixi, mas ali não tinha nenhum matinho... Falamos pros meninos seguirem e parei depois pra ir ao banheiro.




O cenário mudava rapidamente. Meu Deus! Eu nem acreditava que estava ali mesmo.
Numa fiscalização policial, um dos guardas falou alguma coisa pro Ri, como ele não entendeu, parou no acostamento e já foi pegando a Carta Verde, mas o guarda disse que não queria, ele só queria avisar que o Passo Jama, a fronteira entre Argentina e Chile, estava fechado e com nevasca, que seria impossível chegar em San Pedro do Atacama, nossa cidade destino do dia. Perguntamos aos guardas se tinham visto outras duas motos juntas com brasileiros e disseram que não. Um carioca numa moto pequena, 300 cilindradas acho, sozinho, indo pra lá também,  que estava se preparando pra sair, disse que eles tinham passado direto. 

Chegamos a Purmamarca. A última cidade antes da Fronteira. Encontramos os meninos, cada um num canto. Quando nos reunimos, outros motociclistas disseram que estava muito feio lá pra cima, que estava tendo racionamento de água e comida e que não havia lugar pra dormir. Decidimos seguir nosso plano original e seguir em direção à fronteira, se desse pra passar, passaríamos, mas se a estrada realmente estivesse intransitável, voltaríamos, mas pra isso teríamos que abastecer, pois se tivéssemos que voltar a gasolina de nossos tanques não daria. Tivemos andar um pouco pra chegar em Tilcara, onde tinha posto de combustível e advinha: fila!
Enquanto os meninos ficavam na fila, debaixo do sol, eu fui à um simpático restaurante do lado do posto, fui no banheiro e comprei umas empanadas e refrigerantes. Todo mundo devorou as empanadas rapidamente, então voltei e comprei mais. E nada da fila andar... Depois de sei lá quanto tempo  ( é esquisito pensar em tempo, perdemos a noção dele, as vezes muitas horas pareciam voar e outros minutos levavam horas...) conseguimos abastecer, recarregamos os camel backs, colocar os forros na jaqueta e calça seguimos em direção ao Andes.

Estávamos aos pés do gigante. E eu estava surtando! Queria filmar e fotografar tudo que via. Era tudo lindo. Cada montanha exibia uma variedade imensa de cores. Um festival para os olhos. Casas que se camuflavam nas montanhas. Vilas inteiras camufladas nas montanhas. Cemiérios camuflados na montanha. Tudo muito diferente da beleza que estamos acostumados no Brasil. Ao mesmo tempo que tudo é lindo e emocionante, parece tudo morto, sem vida. Com certeza um espetáculo da natureza.




Depois de Purmamarca a estrada era cheia de curvas fechadas, me lembraram um pouco a Serra do Rio do Rastro em Santa Catarina. Nas primeiras curvas o medo apareceu e fechei os olhos, mas depois pensei que não podia continuar de olhos fechados e deixar de sentir o frio na espinha. Abri os olhos e aproveitei cada arrepio. E que visão era aquela? Algo que meus olhos nunca tinham visto antes. Eu achava que já eram as Cordilheiras, mas depois o Ri falou que ainda não eram. Se eu já estava emocionada ali, imagine quando chegasse nas Cordilheiras... 


Na estrada encontramos vários grupos de moto de brasileiros. A gente sempre acaba se cruzando, um grupo parava pra tirar fotos e a gente seguia em frente, depois a gente parava e outros no passavam, e assim seguíamos viagem sempre com as mesmas pessoas.



Essa etapa da viagem foi muito esperada, então a cada curva dava vontade de parar, não só pra tirar fotos, mas pra compartilhar o momento com os outros. E em todas as paradas eu e o RicardoM nos abraçávamos felizes de estarmos onde estávamos.





Numa curva, paramos pra tirar foto, mas quase não deu pra ver nada, o tempo estava fechando. Subimos na moto pra seguir e já estava tudo aberto. O Ri comentou como o tempo estava inconstante, como as coisas mudam em uma fração de segundo. A natureza já estava mostrando sua força para nós.

Curvas e mais curvas... Eu já estava até curtindo a sensação e estava de olhos abertos o tempo todo.

Ao longe se via um mar branco. Era um salar. Paramos e eu já fui correndo pisar no salar, o RicardoM ficou tirando foto de umas crianças que ficaram babando com nossas motos. A primeira coisa que fiz foi pegar o sal e botar na boca, e num é que era salgado! Tiramos as tradicionais fotos... Tinha um casal de brasileiros parados lá antes de nós. Tiramos fotos pra eles e eles pra nós. Não perdemos muito tempo lá, afinal já tínhamos perdido tanto tempo em tantas outras coisas sem importância...






Saímos na frente, o RicardoM e o Nairo vieram um pouco atrás. Eu ainda estava totalmente entretida com a paisagem, que não entendi o porquê do Ricardo estar parando a moto. Assim que a moto parou vi uma motinho parada na beira da estrada com dois caras locais, em fração de segundos pensei ser polícia, mas depois percebi que não era. Não tive nem tempo de perceber o que realmente estava acontecendo e um cara local veio pra cima da moto pedindo “nafta, nafta”, gasolina, eu não estava entendendo nada, só sabia que não estava gostando nem um pouco daquela história, o Ri falou que não tinha nafta e o cara escaniou a moto toda, percebendo no painel o GPS e a bolsa de tanque, rapidamente enfiei as mãos com a câmera fotográfica, que estava presa ao meu punho, no meio das pernas, entre o Ri e eu. O RicardoM e o Nairo chegaram e encostaram em nós pra ver o que estava acontecendo e o cara rapidamente se afastou. O Ri disse que ia comprar nafta mais pra frente e voltava. Quando saímos falei com o Ri pelo intercomunicador e achamos tudo muito estranho, se o Nairo e o RicardoM não tivessem chegado talvez teríamos sido assaltados. Na hora me lembrei do casal que vinha atrás de nós e falei pro Ri voltar pra buscar eles, e assim fizemos. Quando me dei conta, o Nairo e o RicardoM não estavam atrás de nós e o Ri disse que eles pararam, provavelmente pra economizar gasolina.

Depois o RicardoM nos disse que quando ele estava pela estrada, um cara mal encarado, que deveria até ser comparsa dos outros dois fez as cabras atravessarem a estrada bem na sua frente, ou pra forçá-lo a parar ou para derrubá-lo, mas graças a sua destreza na pilotagem, escapou por um triz.

Quando passamos de novo pelos dois malandros ,os dois ficaram nos olhando sem entender nada. Na volta os dois já não estavam lá, se eles não tinham gasolina como é que saíram de lá?! Mais pra frente encontramos os dois, entrando numa casa, mirei a máquina e tirei uma foto dos dois...

Meu Deus! Quantas emoções.

Logo depois avistamos uns bichinhos... vicunhas... Depois llamas... Pra levantar o astral. Foi muito emocionante ver esses animais tão pertinho de nós.


Passamos praticamente um dia inteiro no meio de montanhas. Quando achava que o cenário poderia começar a ficar repetitivo, me surpreendia com um visual totalmente novo.  Então caiu a ficha de onde estava. Eu estava entrando na Cordilheira dos Andes!














Aquela imensidão de terras! Imaginei que poucos metros longe da estrada, já seriam suficientes pra perder totalmente o rumo. Comecei a ter noção da magnitude do lugar que meus pés estavam pisando. Comecei a agradecer a Deus pela oportunidade de estar nesse lugar maravilhoso, agradeci a Deus por estar fazendo essa viagem ao lado de meu companheiro e grande amor, depois de tantas coisas que passamos, nosso amor se fortaleceu tanto que aquele lugar se tornava pequeno, mas era eu quem estava se sentindo pequena, no meio daquela imensidão tomei consciência de quão pequenos somos, independente do tamanho dos nossos sonhos ou da grandeza da nossa vida. Quando comecei a falar pro Ri o quanto eu o amava e o quanto estava amando estar ali com ele, minha garganta sentiu um nó descer e eu comecei a chorar. Chorei incontroladamente. As lágrimas escorriam dos meus olhos sem parar. Não conseguia dizer mais nada, só chorava. Acho que nunca tinha ficado tão emocionada antes.


Já estava mascando folhas de coca, e cada vez que a gente parava, podia sentir os efeitos da altitude.

O tempo começou a esfriar um pouco, mas eu estava preparada. De longe vimos nuvens jogando água nas montanhas a frente, ou neve... O vento  estava cada vez mais gelado. A moto que acudimos, estava junto conosco e a menina já estava tremendo, morrendo de frio. Eu ainda estava bem, mas já estava cheia de roupa. E então vimos a neve nas montanhas, bem longes de nós. Ficamos bem emocionados, nem eu nem o Ri tínhamos visto neve de perto. 









Um pouco antes da fronteira da Argentina com Chile tinha um posto, enquanto os meninos abasteciam, entrei na conveniência pra tomar um café, pra esquentar um pouquinho. A menina da moto que estava com a gente estava quase congelando, eles decidiram não entrar no Chile naquele dia, entrariam só no dia seguinte, e conseguiram pegar a última vaga no hotel do posto. Nós decidimos seguir.



Como estava com o copo de café falei pra Ri entrar na fila da aduana que eu ia caminhando, afinal eram só 200m. Quando cheguei nos meninos, não conseguia nem falar, meu coração estava palpitando, estava tonta, minha boca estava seca, e o frio estava castigando, afinal estávamos a 4200 metros de altitude, uma simples caminhada parecia uma maratona.

Na fila, uns argentinos vieram falar conosco, eram duas famílias amigas que estavam viajando de férias. Muito simpáticos, ao contrário da maioria dos seus conterrâneos. Quando conseguimos finalmente parar as motos e os meninos entraram na aduana e eu fiquei olhando as motos, que estavam cheias de coisas soltas. O hermano Francisco me fez companhia e batemos altos papos. Francisco é fumador, então estava com cilindro de oxigênio e me deu um pouco, na hora não senti muita diferença. Quando os meninos voltaram com a papelada ok, precisava ir no banheiro e o Ri foi comigo, e ainda bem que ele foi, pois quando entrei no prédio, fiquei tonta na hora. O local era totalmente fechado, cheio de gente respirando o mesmo pouco ar, era quase impossível respirar lá dentro. Fui rápido ao banheiro e fomos embora. Os meninos contaram que estavam na fila lá dentro e ouviram um barulho, o Ri olhou pra trás e uma criança tinha desmaiado e caído de cabeça no chão, por causa da altitude, eles disseram que os funcionários do governo argentino socorreram a criança tão rápido quanto tartarugas.

Ah, o ônibus com os catarinas estava lá faziam três horas e pelo visto iam demorar a sair de lá. E umas motos de brasileiros saíram um pouco antes de nós.

Pegamos a estrada, eu não tinha noção que a aduana chilena ficava tão distante da aduana argentina, são 160km que terminam dentro de San Pedro de Atacama.

Saímos da aduana argentina andamos um pouco e a noite começou a cair. O frio veio junto com a noite. E então começou a chover,  e então senti as gotas caírem com força e espirrarem, não eram gotas e sim pedras. Sim, era granizo! Mas a aventura não parou por aí. Logo depois da chuva veio a neve! Se eu não estivesse sentindo tanto frio até ia achar lindo. A essa altura as baterias das máquinas já tinham acabado e não consegui registrar o ponto alto da viagem. Paramos pra colocar a capa de chuva e antes coloquei mais um fleece e cachecol, e só agora foi que o RicardoM colocou suas luvas, até agora o maluco estava de mãos nuas. Estava com tanto frio que não consegui aproveitar nada, estava muito escuro, apesar da lua cheia. Quando começamos a andar o vento batia e cortava, eu não enxergava nada a minha frente, mas o Ri disse que estava vendo tudo. Me concentrei em ficar atrás do Ri, pra não ver que não estava vendo nada, e portanto não entrar em pânico. Atingimos 4836 m de altitude. Nunca tinha sentido tanto frio na vida, o frio era tanto que comecei a apagar, acordava com minhas pernas pulando, elas não estavam nem tremendo mais, estavam pulando. Me esforçava pra ficar de olhos abertos mas era impossível. Mais do que nunca, não poderia dormir, com chuva, neve e temperatura a baixo de zero, a pista se tornava escorregadia, e uma vacilada minha poderia levar a um tombo feio.

Finalmente os ventos começaram a esquentar, e eu comecei a acordar e já dava pra ver as luzes de San Pedro, foi mais uma vez uma grande emoção.

Chegamos na aduana, que já era na entrada da cidade. O ambiente estava bem estranho, estava muito escuro, já passava da meia noite. Desci da moto pra perguntar pro oficial onde parar e ele nos indicou um lugar que tinha outras motos, o guarda nos falou para pararem as motos lado a lado com as outras, que estavam paralelas à guia. A aduana estava cheia, e então os meninos foram cuidar das burocracias e eu fiquei cuidando das motos. Eu estava morrendo de fome e de dor de cabeça. Depois de nós chegaram dois gaúchos, que estavam com mais duas motos que ficaram pra traz, na travessia , uma das motos era carburada e estava sofrendo um bocado com a altitude. O tempo parecia que tinha parado. E então os brasileiros das BMs, que estavam lá em cima na aduana argentina, foram dispensados e queriam sair, como eles pararam as motos errado, eles ficaram presos por nós. Um babaca queria que eu tirasse a moto, expliquei que não pilotava, e consegui chamar o RicardoM, enquanto ele vinha tive que ouvir do guarda: “É assim que vocês costumam parar as motos no seu país?”, e tive que ficar quieta, afinal era um oficial chileno. E então o babaca queria tirar a moto do Nairo de qualquer jeito, e eu não deixei. Enfim, o Ricardo arrumou a moto do Nairo e o babaca nem agradeceu... fdp... O tempo se arrastava. Atrás de nós tinha um carro parado com um família argentina, quando o fiscal foi inspecionar o carro da família, achou frutas, e saiu com elas na mão. O homem ficou tão irritado, gritava, as crianças choravam e ele gritava pra ela: “Cala boca, carajo!” Eu baixei minha cabeça e fiquei quietinha de vergonha por aquela mulher. Depois o ônibus que estava parado desde tarde, também foi embora. Todos estavam indo embora, só tinham as motos agora.

Eu não estava mais agüentando ficar ali, sozinha com as motos. Chamei o Ri e os meninos e eles levaram a moto pra perto de onde estavam e consegui relaxar um pouco, pelo menos agora estava junto de todos. Os fiscais estavam de sacanagem. Estavam provocando os brasileiros ao máximo. Um deles quando percebeu que o documento da moto era de outra pessoa, perguntou por que ele não tinha uma moto dele, e o gaúcho responde: “Não tenho dinheiro!” a resposta do guarda não podia ser pior: “Essos son los hijos de Brasi, hijos de puta!”

Diante dessa palhaçada toda, nos restava esperar a boa vontade deles. Na hora de inspecionar as bagagens, abrimos apenas um dos três baús e ele disse que tava tudo certo. Mas depois fecharam tudo e ficamos lá esperando nos devolverem os documentos. Enquanto esperávamos os outros gaúchos chegaram. Além da moto carburada penar pra subir, a garupa da outra moto passou muito mal com a altitude, ela chegou até a vomitar. Chegaram quase duas horas depois dos companheiros e estavam acabados.

Quase duas horas depois conseguimos pegar os documentos e vistos. Mas nem tudo eram flores, ainda teríamos que achar o hotel, que era o único da viagem que tínhamos feito reserva. O GPS funcionou direitinho e achamos o hotel, mas ficamos decepcionados, as fotos eram bem melhores. Acordamos o menino da recepção, preenchemos a ficha jogamos tudo nos quartos e fomos procurar um restaurante pra comer alguma coisa.Depois de pouco andar descobrimos que só conseguiríamos comida àquela hora, quase duas da manhã, em um lugar então seguimos direto. Comemos e fomos pro hotel desmaiar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Atacama

Ontem chegamos cedo ao hotel, enquanto o Ri lavava as roupas eu escrevia um pouco do blog. O RicardoM chamou a gente pra ir pra praia, e dissemos que iríamos assim que o Ri acabasse de lavar as roupas. Quando o Ri acabou, ele perguntou se eu queria terminar de escrever, mas eu disse que estava fazendo essa viagem pra aproveitar e que escrever o blog seria um complemento, não ia deixar de conhecer a cidade pra escrever o blog, se ficar na função de escrever o diariamente, ou vou deixar de dormir, ou de me divertir, ou de conhecer algo interessante.
Então me desculpem se queriam ler a viagem em tempo real. Não estou conseguindo, mas uma hora eu escrevo...
Está tudo muito legal, mas está muito cansativo.

Atacama - Quarto dia - 05/01

Acordamos cedo, mas ganhamos uma hora, pois na Argentina não tem horário de verão. Havíamos combinado de tomar café no terraço. Fui um pouco antes do horário combinado, me sentei e liguei o computador pra mandar um e-mail pra minha mãe, pra dizer que estava viva, pra garantir mandei com cópia pra minha irmã, como não tinha postado nada no blog era capaz de elas ficarem preocupadas.

O primeiro café-da-manhã argentino atrasou um pouco, mas chegou. Tantas coisas diferentes... 

A gente ainda estava se acostumando um com o outro, afinal a gente não se conhecia, e, apesar de passar tanto tempo juntos, estamos distantes uns dos outros, até eu e o Ri, pois não usamos o intermunicador todos os dias.  O tempo que ficamos juntos mesmo, são os momentos em que paramos, que até agora tem sido poucos.

Hoje o dia ia ser difícil, teríamos que vencer “A Provicncia del Chaco”, uma reta de 850 quilometros, que todos dizem ser terrível, não há combustível, não há nada e o calor é infernal. Tínhamos que conferir. E lá fomos nós...

Antes de partir, O RicardoM comprou um tanque de 5l pra levar combustível reserva. A moto dele estava consumindo muito mais do que o esperado, mesmo com uma gasolina muito melhor que a nossa, já que não tem adição de etanol, a Freewind consumia mais que no Brasil, e 5 litros a mais podiam fazer a diferença.

Realmente era uma reta interminavelmente quente. O “Chaco” é um grande alagado pantanoso. A estrada é reta, mas tem subidas e decidas, quase imperceptíveis, mas tem. E tem alguns vilarejos entre as cidades maiores. A vegetação varia muito, vai de pasto a floresta. Vi uma plantação de girassóis, mas não estavam tão bonitos, já estavam amadurecendo e não estavam tão amarelos. Vi também pela primeira vez na minha vida, um confinamento de bois, enorme, gigante, não sei nem estimar quantos bois tinham ali.






Alguns postos que paramos não tinha gasolina e os que tinham combustível, tinham também longas filas. Num dos postos que paramos, os meninos estavam na fila pra abastecer, de repente um funcionário do posto coloca uma separação entre o Nairo e os Ricardos. No começo não entendemos direito. O Nairo abasteceu e depois dele interromperam o abastecimento para que o caminhão de gasolina descarregasse. Nessa brincadeira se foi mais de uma hora. E o pior de tudo é que saindo do posto depois de tanto esperar, mais pra frente tinha outro posto sem filas...






Os postos argentinos são bem diferentes dos nossos, muitos não tem cobertura, e ao contrário dos relatos que li, os banheiros são bem limpinhos, quase todos tem até papel higiênico, sabonete líquido e papel toalha.

Até agora os meninos estavam comportados, andando na velocidade máxima de cada pista, mas se continuássemos assim não chegaríamos nunca, então eles começaram a acelerar um pouco...



 E a gasolina do RicardoM evaporou, acabou tudo, não sobrou uma gota e a moto só parou quando perdeu toda a velocidade, pois já havia morrido há tempos.


A cada cidade ou vila, logo após a saída na estrada via bandeiras vermelhas, com cruzes. No começo pensei que fossem aqueles altares que fazem pra homenagear que morreu na estrada, depois comecei a ver uns muito esquisitos para serem altar, mas não descobri o que realmente eram.



O calor estava infernal, pra diminuir um pouco a temperatura, eu enchia a boca com água e jogava dentro da camiseta, assim viçava com o peito molhado e mesmo a água saindo quente, em segundos ela esfriava e ficava tudo fresquinho. Foi o primeiro dia de muito calor que não passei mal.

Acabando “el Chaco” entramos na Provincia de Salta. O Ri estava olhando o GPS e perdeu a entrada pra cidade de Salta. Conseguimos pegar a pista do outro lado, vimos uma entrada de terra pra via local, quando passamos por lá caímos num buraco fundo, o Ri se desequilibrou e eu também, estávamos bem devagar, o Ri não conseguiu segurar a moto e quando percebi que ia cair, me joguei no chão e deixei a perna esticada pra segurar a moto, caso ela caísse em cima de mim, mas isso não aconteceu. Caímos praticamente em câmera lenta. O RicardoM e o Nairo estavam com cara de espanto. O RicardoM pulou da moto pra me levantar, enquanto o Ri levantava os 250 quilos da moto num piscar de olhos. Eles estavam preocupados comigo, e perguntaram umas quinhentas vezes se eu tinha me machucado. Mas não aconteceu nada, quando percebi que a moto não ia ficar de pé, me joguei.
Passado o susto, achamos o caminho certo e fomos pra Salta. Cruzamos com um grupo de motociclistas que buzinou pra gente. É incrível essa cumplicidade entre os que viajam de moto, sempre que se cruzam acenam pro outro. E como estamos cruzando com outros motociclistas viajando! E todos brasileiros.

Chegando em Salta, demos de cara com uma praça bagunçada e cheia de trânsito, com ruas fechadas mas que  o guarda liberou para passarmos. À procura de um hotel, chegamos na praça 9 de julho, e foi uma surpresa incrivelmente boa. A cidade era um charme. Paramos no Hotel Colonial, um hotel antigo, mas super charmoso, o preço estava dentro das possibilidades, então ficamos lá mesmo.



Enquanto os meninos foram levar as motos pra "cochera", uma camareira baixinha, gordinha e muito simpática me ajudou com as malas. O elevador era daqueles antigos com porta pantográfica de ferro e, no térreo a porta de fora tinha maçaneta para abrir. Chegando no andar um pequeno jardim de inverno, bem bonitinho. Tudo muito charmoso, o quarto então... uma coisa! Fiquei no quarto e comecei a organizar as coisas, baterias a recarregar, roupas pra lavar, a parte chata de uma viagem. Abri a janela e dei de cara com a praça, que tinha prédios ao seu redor com uma arquitetura fantástica, bem espanhola.

O Ri chegou e enquanto ele tomava banho, vi da janela uma procissão com música bem forte, com tambores e flautas. Era a celebração do dia de reis.

Depois do banho estendemos as roupas e fomos jantar. Demos uma volta na praça para ver as opções, decidimos jantar no primeiro. Ao sentar na mesa, o garçom estava demorando demais, e na mesa ao lado tinham três pessoas fumando e jogando a fumaça em cima de nós, tudo foi me irritando ao ponto de sair do restaurante e ir pra outro. Nos sentamos e pedimos três cervejas diferentes pra experimentar. Pedi ao garçom o menu em inglês, pois meu vocabulário em espanhol anda meio fraco e o inglês poderia ajudar na hora de descobrir os ingredientes de um prato. Desde então, o garçom falava em espanhol com os meninos e repetia tudo em inglês pra mim, apesar de eu só falar com ele em espanhol. É... um argentino!

Eu, Ri e Nairo comemos lhama, que estava divina e o RicardoM comeu uma salada.



Um senhor passou vendendo “ojas de coca”e o RicardoM comprou para enfrentarmos a travessia da Cordilheira dos Andes. Fomos pagar a conta direto no caixa, para agilizar um pouco, sabíamos que o serviço não estava incluso, como fez questão de lembras nosso “amável” garçom. A moça do caixa tentou nos cobrar a mais e o garçom pedia um valor maior que 10% de “propina”, eu estava querendo dar uma porrada naquele garçom idiota, e no final a moça do caixa não nos enganou e não demos nada de “propina” pro imbecil.

Estávamos encantados com a cidade, era tudo lindo, tiramos um monte de fotos e voltamos pro hotel.




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domingo, 8 de janeiro de 2012

Atacama - Terceiro dia - 04/01

O grande dia havia chegado, entraríamos na Argentina. Para mim a viagem começa agora, já que daqui pra frente tudo é desconhecido.

Tínhamos marcado às 6:30 no café-da-manhã, mas o restaurante só abria às 7:00, então eu e o Ri fomos na farmácia. Como eu já estava suando desde que tinha acordado, nem coloquei a jaqueta, fui só de camiseta, com os braços de fora. O vento estava tão gelado que doía no osso. Achei ótimo, assim eu estaria livre do inferno. Mas foi só impressão, hoje foi o pior dia de todos, imagina o que virá amanhã que serão 850 km de reta. Logo que pegamos o rumo pra Argentina, sentimos que o dia seria quente.

Perdemos muito tempo na fronteira. Ainda do lado brasileiro, apenas dois guichês estavam funcionando, então a fila demorava a andar, então nós esperamos debaixo do sol. O Nairo foi o último a passar e a moto dele morreu e não queria mais pegar, foi preciso fazer pegar no tranco. O Ricardo amarrou uma cordinha de na moto dele e na do Nairo pra puxar, a moto pegou no tranco. Antes da viagem, nas inúmeras conversas por e-mails, a tiração de sarro era com o Ricardo, que a moto dele não ia agüentar, o Nairo comprou a cordinha para alguma emergência, e todos esperavam que fosse com a moto do Ricardo, mas acabou sendo com a do Nairo.







Logo que entramos na Argentina paramos pra abastecer. Nos relatos de outros viajantes, diziam que os postos de gasolina eram péssimos e que os banheiros eram terríveis, mas nesse primeiro posto estava tudo limpinho, aproveitei pra colocar uma leging por baixo da calça de moto, o tecido do forro estava me incomodando muito, preferi passar um pouco mais de calor do que ficar com a calça me irritando. A loja de conveniência era muito boa e cheia de quitutes ainda desconhecidos por mim.

Um pouco mais pra frente passamos no meio de uma cidadezinha, falei pro Ri que estava com fome, ele parou no meio da cidade, ao lado das motos de policiais, perguntamos onde podíamos comer e o guarda disse que mais pra frente. Eu já estava chingando o Ri estava com muita fome.

Paramos num restaurante muito simpático. Eu já pedi uma Coca Cola “muy helada!” e comecei a arrancar a roupa de moto, o calor estava insuportável. Pedimos um carré de boi que estava simplesmente perfeito, maravilhoso, de lamber os beiços.



Encontramos uma turma de moto, vindo do Rio Grande do Sul, mas que iriam passear só na Argentina, outra turma de São Paulo que estava viajando de Toyota Bandeirantes. Um argentino começou a conversar, é impressionante como as pessoas querem saber de onde somos, pra onde vamos... E sempre dizem que somos corajosos. Antes de sair molhei minha camiseta e bandana no banheiro pra refrescar um pouco. As motos ficaram no sol e foi difícil sentar nelas, estavam pelando.

Os postos de combustível tinham muita fila e não aceitavam “tarjetas”, e os preços estavam muito mais altos do que esperávamos. Num dos postos que paramos parou logo depois um ônibus de turismo brasileiro, com um monte de catarinas dentro. Trocamos idéias com eles e seguimos nosso rumo. Um detalhe muito interessante é que um pouco antes de pararmos quando fomos ultrapassar o ônibus, ele nos deu uma fechada, tinha que ser do Brasil, pensei.

Seguimos viagem pela Ruta 12, passamos pela Província de Missiones, e entramos na Província de Corrientes e depois entramos na Província de Reistência. Uma reta interminável.  Um calor insuportável. O calor estava muito forte, minha pressão estava caindo e estava me dando muito sono, estava pescando, a sensação era péssima, eu queria manter os olhos abertos, então eu via tudo mas parece que estava desligada, meu cérebro parava de funcionar e quando percebia estava sonhando, acordava sempre assustada, o que é um perigo, pois posso desequilibrar a moto e derrubar a gente.

Passamos por dentro de uma cidade grandinha, e quando paramos no farol, perguntamos a um motoqueiro quanto graus estava e a resposta foi 45 graus, mas a sensação térmica era de uns 50 graus. Paramos num posto, pra abastecer e quando desci da moto vi uma torneira, fiz a festa. Me molhei inteira, ainda bem que cortei o cabelo antes da viagem, jogava água na cabeça, no pescoço, no peito, quando percebi todos da fila estavam chocados vendo eu me molhar, não  entendi porquê. Na hora meu corpo resfriou uns dez graus. Antes de partir, falei pros meninos se molharem também e todos foram lá, e eu tive que me molhar de novo pois no tempo de abastecer a moto, já estava seca. A viagem seguiu um pouco mais fresca... nos dez primeiros minutos.





No meio do caminho decidimos dormir em Resistência ao invés de dormir em Corrientes, como havíamos planejado. Quando o sol começou a cair já estávamos perto. O sol começou a se por, estava um espetáculo maravilhoso, lembrei da Ciba... tem muitas fotos do pôr-do-sol argentino...





Chegando em Resistência, passamos por uma avenida bem movimentada, onde era proibido transitar motos. Foi muito engraçado, por onde passávamos todos ao redor nos olhavam, parecíamos ETs... Um brasileiro gritou: “Vocês chegaram no lugar certo, isso aqui é o melhor da Argentina!”.

Não demorou muito pra acharmos um hotel, é claro, demos umas voltinhas, mas achamos rápido. Já estava tarde. Saímos do hotel de Foz por volta de 8 da manhã e estávamos chegando em Resistência por volta das nove da noite. No primeiro hotel que paramos pra perguntar o preço ficamos. Era perto do centro, novinho, tinha “cochera”, café da manhã, tudo que precisávamos.

Jogamos tudo no quarto que era no segundo andar sem elevador e saímos pra comer. Fomos numa praça grande cheia de esculturas como toda a cidade, afinal, Resistência é a Capital das Esculturas na Argentina. Achamos o “cajero”, sacamos más pesos e fomos procurar um restaurante. Andamos, andamos, andamos e no final paramos no restaurante na rua do hotel, o primeiro que vimos. Después de comer uma empanadita de entrada e um super sanduiche no jantar. 




No caminho do hotel passamos numa farmácia, o RicardoM tinha dito que a tomada era diferente e que não cabiam nossos eletrônicos para recarregar. As únicas coisas abertas na cidade eram farmácias, então fui procurar adaptador lá, mas não achei. Achei “mantega de cacao” pois meus lábios estavam totalmente ressecados e achamos uma faixa elástica pro Ri amarrar nos punhos que já estavam torrados. Desde o primeiro dia ele está usando a luva de verão, que é curta e não cobre os punhos, apesar de passar protetor solar estava virando uma queimadura muito feia, então tive a idéia de colocar micropore, mas o que tinha não ia durar muito mais.

Depois da longa jornada: CAMA!  Que escrever blog, que nada! Agora entendem porque demorei tanto pra escrever? Ainda mais colocando tantos detalhes...