sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Atacama - Sexto dia - 07/01

Acordamos às 8:00, horário local, pois era o horário que começava o café. Eu e o Ri chegamos primeiro, nos sentamos calmamente pra tomar nosso café, ainda sonolentos. Ao nosso lado uma família de americanos com uma criança, mais pra trás outra família que não era de brasileiros. Uma quantidade limitada de pães e frios foram servidos na mesa junto com a água para fazer o café solúvel ou chá. Estávamos quase no final quando o RicardoM e o Nairo chegaram. O RicardoM se levanta pra pegar café e quando ele volta começa a bater a xícara feito um louco, todos no salão se assustam, mas ele nem liga, continua batendo, batendo, batendo... “É pra ficar cremoso!” foi o que o maluco disse. E bateu muito... Não agüentamos, caímos na gargalhada. O mais engraçado era ver a cara das pessoas assustadas com o barulho e o RicardoM com cara de pastel, dando de ombros e dizendo que fazia isso em casa todos os dias e que o resultado seria fantástico. Foi hilário!

Depois do café voltamos pra cama, estávamos acabados. E pela primeira vez em quatro anos de casamento, o Ricardo queria dormir e eu não, mas ele foi mais forte que eu e voltamos a dormir.

Acordamos por volta das onze, eu fui tomar banho e lavar roupas e o Ri ficou na cama dormindo mais um pouco. Logo depois os meninos bateram na porta. Eles tinham visto alguns passeios e passeado pela vila enquanto eu e o Ri roncávamos.

Saímos para conhecer a cidade, caminhamos pelas ruas de San Pedro, o hotel pode ter decepcionado um pouco a primeira vista, mas depois compensou pela praticidade de estar a 5 minutos do centro a pé. Fomos até uma agência de turismo e decidimos os passeios que queríamos fazer. Ainda tínhamos tempo, os passeios são, praticamente todos, às 16:00, por causa do sol forte e então fomos passear um pouco mais antes de almoçar. Fomos num mercado de artesanato local, tinham tantas coisas legais, queria comprar tudo, mas o Ri não deixou, por não termos espaço pra levar. Tinham muitas coisas interessantes e muitas outras que estamos cansados de ver no Brasil nas feiras de artesanato. O mercado em si não é muito diferente dos nossos mercados de artesanato. Além dos artesanatos, tinham também comidinhas diferentes, quitutes de folhas de coca, docinhos. O RicardoM então nos mostrou o “El Vigorón”, um estimulante sexual com uma foto pornográfica na embalagem caseira, tipo as garrafadas do nordeste.

Na vila se via turistas de todo o mundo e para todo lado que olhávamos; brasileiros. Cruzamos com os gaúchos que estavam ontem na aduana. Era tudo muito agradável, ainda mais depois de cinco dias andando muito de moto, na verdade, era tudo maravilhoso. De vários pontos da vila dava para ver o vulcão extinto: Licancabur, um contraste incrivelmente maravilhoso já que o calor estava bem forte, típico de deserto e o vulcão é coberto de neve. As ruas são de terra e sem calçada e as casas são todas muradas e não dá pra perceber o que é muro ou que é casa, como o nosso hotel, que tem um pátio enorme por detrás dos muros.


Esse foi o primeiro dia que passamos inteiro juntos. Nos dias anteriores na mesma hora estaríamos com um na sua moto, conversando apenas nas paradas nos postos. Agora as relações começaram a se estreitar. Começamos a conhecer um pouco mais a vida do outro. Foi lindo ouvir o RIcardoM falando de Lúcia, sua amiga, companheira, esposa e amada (ele não disse amante, pois é muito cavalheiro e respeitoso) há 38 anos.  Adorei ouvir que depois de tantos anos eles ainda se amam muito.          

Fomos almoçar num restaurante que achamos muito interessante na noite anterior, mas que já estava fechado na hora que passamos. Apesar de ser todo murado, por dentro era todo aberto, com uma enorme fogueira que funcionava somente à noite obviamente. Nos sentamos ao lado de uma grande árvore bem verdinha, e a dúvida surgiu, como ela se alimentava, já que em San Pedro quase nunca chovia? A resposta da garçonete foi que não chove, mas o solo é repletos de água com muitos lençóis freáticos. Tomamos uma cervejinha, afinal, ninguém ia dirigir. Pedimos os pratos, o azeite que estava na mesa era maravilhoso, com gosto de azeitona, encorpado, que no Brasil pagaríamos uns R$ 30,00 e que não encontramos nem nos restaurantes mais refinados e que aqui era comum de qualquer buteco.  Almoçamos na companhia de um gato no telhado e uma cadela aos meus pés, que acabou comendo todo o arroz que sobrou no meu prato, afinal, arroz eu como em casa.

O RicardoM finalmente resolveu usar o camel back que até hoje só tinha passeado. Mas o cara comprou água com gás pra colocar reservatório de água. Quando ele foi tomar, o negócio pegou uma pressão que assim que ele mordeu o bico da mangueira, a um jato de água quente bateu com tudo nas amídalas dele, segundo ele próprio. Cada dia que passa damos mais risadas com as trapalhadas dessa criança grande.

Fomos pra frente da agencia esperar pela van. Faltavam ainda alguns minutos e deixei os meninos lá e fui caminhar pra olhar lojinhas. Quando voltei tinha uma mulher conversando com eles, a Fátima, uma carioca, que ia fazer o mesmo passeio que nós.  Tinha um casal que parecia ser de coreanos, mas que falavam francês, com um filho pequeno, uns três anos, eu acho. Quando o guia começou a fazer a chamada pro passeio, a criança começou a dançar e rebolar, o que fez todos caírem na gargalhada. Eles foram conosco pro Vale de La Luna.

O motorista da van era o guia também. Primeiro fomos para o Mirador do Coyote.





Depois fomos para o Vale de La Muerte, onde o guia nos deixou num lugar para caminharmos até o ponto aonde ele ia nos buscar. Enquanto caminhávamos sentia a secura do ar. Com medo de ter uma crise alérgica das brabas, tomava muita água, além de usar um remedinho básico. De tanto beber água, deu vontade de fazer xixi, pra variar. Deixamos o povo andar na frente, e o Ri me acompanhou até atrás de uma pedra pra eu poder deixar meu DNA, apesar das enormes pedras, o terreno era bem descampado e tinham umas pessoas andando nas pedras bem lá em cima, mas se vissem minha bunda não iam reconhecer minha cara depois, tamanha a distância. Não tive dúvida e me aliviei. Agora poderia caminhar mais uma hora, até dar vontade de fazer xixi de novo.





Peguei um pouco da areia do chão para sentir a textura. É incrível a variedade de cores em um punhadinho de terra.



Entramos na Reserva Nacional Los Flamencos, na portaria fui ao banheiro mais uma vez e que bela surpresa, o banheiro era encravado na terra.




No parque vimos Las Tres Marias, pedras que faziam lembras pessoas rezando. Vi algo brilhar no chão, quando me aproximei vi uma grande pedra de sal, como se fosse um cristal.





Quando estávamos quase indo de volta pra van, encontramos os catarinas do busão, e uma senhora nos avisou onde ficava a mina de sal. Nosso guia não nos acompanhava nos lugares, ele simplesmente dava uma breve explicação e nos jogava para explorarmos o local, para cultivar sua barriga de tanquinho. Entramos na mina o RicardoM queria tirar uma foto lambendo uma pedra de sal no teto da mina. Eu enrolei um pouco pra bater a foto, dizia que não tinha ficado boa e pedia pra repetir a pose, assim fiz várias vezes. O guia que estava acompanhando uma turma até fez uma piada para seu grupo sobre o RicardoM estar lambendo o teto, mas ninguém entendeu o que ele disse, só sei que todos riram muito de nós.




Entramos de novo na van, não sei qual ar era pior, o de fora ou o de dentro da van, não sei qual tinha mais pó. Fomos para o Vale de La Luna, que é loteado entre as agências para que todos possam ver o pôr-do-sol. Nosso guia nos levou à montanha mais baixa, creio que para evitar a fadiga, mas a vista era bem bonita. Passamos perto da duna mãe, antes podia atravessá-la, mas ela começou a baixar demais, então fecharam a passagem, ela nunca mais voltou a altura de antes. Nos sentamos para esperar o pôr-do-sol. Fiquei conversando com a Fátima, nesse dia ela estava comemorando o aniversário do filho, Gabriel, que completaria 29 anos, mesma idade que eu. Gabriel foi vítima da hipotermia numa tempestade na montanha Mulanje no Malaui , África, em 2009.

O pôr-do-sol muda a cada instante as cores das montanhas. Cada vez que olhamos a montanhas elas estão com cores diferentes de um minuto atrás. Como nossa vida. Esses lugares tão lindos e tão sem vida aparente, nos fazem refletir sobre muitas coisas, sobre a vida. E quando entramos em contato com uma história tão triste mas ao mesmo tempo tão linda, como a de Gabriel, ficamos muito mais emotivos, repensando o sentido da vida, ou que damos a ela. Depois que o sol desaparece atrás das montanhas, o céu ainda fica claro mas o vento gela a alma. Como sou precavida havia levado blusa, mas os meninos não. A Fátima levou, pois avisaram pra ela na agência que ia esfriar, por que não nos avisaram?

Nem bem o sol se escondeu, nosso guia quis voltar. O caminho de volta me fez lembrar um formigueiro, todos caminhando na mesma direção, pro mesmo lugar.

No caminho de volta, dentro da van, nos confessamos um pouco frustrados com o passeio. É, é muito bonito, é muito grande, mas nada tão diferente do que vimos até agora. Atravessamos a cordilheira de moto, vimos todas as nuances de cores que a cordilheira tem durante o longo dia anterior, talvez para que tenha chegado em San Pedro de avião, a paisagem seja realmente nova de tudo que viu antes.

Assim que chegamos fomos direto procurar um restaurante. Caminhando de um lado para outro, um rapaz simpático com um chapéu engraçado nos abordou mostrando o menu de um restaurante, a proposta foi interessante, principalmente pros Ricardos, já que tinha Pisco Sauer de cortesia. Fomos ao restaurante e não tinha mesa, para aguardar a mesa, nos sentamos numas mesas bistrô pedimos as bebidas, eu e Fátima pedimos vinho e nos sentamos juntas e continuamos nossos bons papos, os meninos se sentaram na mesa ao lado e pediram Pisco. Os catarinas do busão estavam sentados na mesa e se levantaram um pouco mais rápido para nos dar lugar. O jantar foi muito divertido. De entrada tomei um creme de abóbora que estava maravilhoso, de prato principal eu pedi omelete com salada, os meninos comeram bisteca de porco com batatas rústicas e a Fátima comeu salmão com batatas também. Estava tudo perfeito até o último pedaço, onde encontrei um mega fio de cabelo entranhado na minha omelete.



O que um Pisco Sauer é capaz de fazer? Já no restaurante o RicardoM convidou meu Ricardo pra dançar, como o Ri não aceitou, o RicardoM foi dançando até chegar ao hotel, que era na mesma rua.

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