Acordamos não muito cedo. Tomamos café, mais uma vez o RicardoM deu um show com a xícara e a colher, fazendo sua batucada matinal. Nos arrumamos, arrumamos as motos e fomos ver a neve.
Nem o Ri, nem eu tínhamos visto neve ao vivo, então ele quis ver a neve de perto, já que no dia que cruzamos a cordilheira estava nevando, mas estava escuro e muito frio, além de estarmos sem bateria nas máquinas fotográficas, já que eu tinha acabado com tudo fotografando o dia inteiro.
Enquanto os meninos terminavam de arrumar as motos. Fui colocar a chave no escaninho da recepção e a dona do hotel perguntou se não íamos pagar a conta antes, eu lhe disse que íamos voltar e que nossas coisas estavam todas nos quartos.
Achávamos que seria mais simples sair do hotel hoje, que seria só subir na moto e partir, mas não era tão simples assim. Lubrificar correntes, arrumar o baú com as coisas que poderiam ser úteis, tudo leva tempo. Levamos quase uma hora pra ficarmos prontos. Mas ainda não estávamos totalmente prontos faltava abastecer e pra variar: fila!
Eu estava com muitas roupas, afinal íamos ver a neve, mas por enquanto estávamos no meio do deserto, fritando na fila. Fui me esconder do sol, porque o posto não tinha cobertura. E então, lá estava ele: Licancabur.
Enquanto tentava me esconder do sol, vi uma van com placa da União Européia estacionada lá no posto. Fui chegando perto e vi um mapa com o roteiro dos viajantes, um casal de alemães de aproximadamente 50 anos, que estavam na estrada há um bom tempo e iam viajar por praticamente toda a América do Sul, na sua van/casa.
E, finalmente, seguimos para o Paso Jama, para ver a neve. O dia estava lindo, o céu aberto, cenário ideal, parecia até inacreditável que há alguns quilômetros encontraríamos neve. Nos perdemos um pouco pra achar o Paso, andamos um tempo sem achar ninguém pra perguntar, e quando vimos umas casinhas bem simples, entramos no quintal para perguntar o caminho. Muito desconfiadas, as crianças confirmaram que estávamos errados e nos apontaram a direção correta. A casa era muito simples, quase improvisada, cheia de crianças e cachorros. Não vimos nenhum adulto, ou criança maior de dez anos.
No caminho certo, conseguimos enxergar tudo que a noite escondeu no dia que fizemos a travessia. Não tínhamos noção, por exemplo, que estávamos do lado de um vulcão extinto e várias e que passamos por inúmeras montanhas cobertas de neve. Naquela noite não vimos absolutamente nada, mesmo sendo lua cheia. Tínhamos todo o tempo do mundo pra parar e fotografar, e brincar e conversar, diferentemente de todas as outras vezes que saímos de moto. Tínhamos que chegar a San Pedro somente às quatro da tarde, horário que íamos fazer um passeio.
Numa das paradas, o RicardoM resolveu tirar a tampa do filtro da moto, pra ela andar melhor, pois estava sofrendo um pouquinho com a altitude, e quando ele tirou o banco da moto, pegou e beijou uma fitinha, acho que do Senhor do Bonfim, que a Lúcia tinha dado pra protegê-lo. Eu não estava nem aí pra altitude, estava mascando “ojas de coca”.
Mais llamas no caminho...
E muitas montanhas nevadas...
Na noite que passamos pelo Paso, não se podia ver quase nada, mal se via um palmo na frente do nariz, mas nas vezes que paramos as motos, podíamos ver neve chegando quase no asfalto. Agora a neve já tinha derretido bastante e o mais próximo que ela estava, estava bem longe do asfalto. Então saímos do asfalto para ver a neve. Estava bastante frio, mas o sol esquentava quando parávamos a moto, mas não dava para dispensar o cachecol. Não tenho idéia de quantos graus estava fazendo, talvez estivesse perto de zero, mas positivo.
Paramos as motos e o Ri já se jogou na neve...
e eu em cima dele.
E o RicardoM neve, em nós...
Comemos neve, brincamos, deixamos pegadas... Tudo que um sem infância faz a primeira vez que vê a neve de perto. Nos divertimos.
Os meninos começaram a brincar com seus brinquedinhos... Resolveram subir a montanha, o piso estava bem fofo, achei melhor ficar lá em baixo, sozinha. Aproveitei a solidão para deixar meu DNA nas montanhas, ou seja, fazer xixi.
Brincaram, fizeram caquinhas...
Pode parecer que as montanhas não tem vida alguma, mas olha o que eu achei:
Pode não parecer, mas isso é vegetação nascendo. É a vida achando seu caminho!
Nos despedimos do visual e pegamos o rumo de volta para San Pedro.
Ah, não podia deixar de dizer que encontramos um pessoal com Harleys, e elas estavam sofrendo muito com a altitude. Um motociclista, que passou por nós quando estávamos parados, fez como se estivesse ajudando a moto andar com os pés, tipo os Flintstones...
Chegamos a San Pedro e fomos pro hotel. Escrevi um dia no blog, mas não consegui escrever muito.
Saímos do hotel para almoçar antes de ir pro passeio, mas no caminho paramos pra comer empanadas, comemos vinte e uma empanadas os quatro juntos. As empanadas eram tão pequenas que não fizeram efeito nenhum no meu estômago. Não satisfeita paramos para comer um quiche que estávamos namorando desde o primeiro dia, mas só eu e o Ri comemos. Os meninos fizeram companhia. O RicardoM ligou pra Lúcia via Skype, é impressionante ver que em qualquer biboca tem Wi-fi, até os postos de gasolina ofecerem o serviço. O Brasil pode estar muito avançado em relação aos irmãos latinos, mas nisso temos que reconhecer, que eles estão anos luz à nossa frente.
Chegamos adiantados na operadora de turismo, então deixei os meninos lá e fui ver os lojinhas. Pra não dizer que não comprei nada pra ninguém, comprei dedais pra minha mãe e minha tia, isso com certeza o Ri não ia reclamar que estava ocupando espaço.
Nossos planos era ter ido nesse dia às Lagunas Altiplanicas, que o RicardoM estava louco pra conhecer, mas não achamos vaga em nenhuma operadora,então fomos para a Laguna Cejar. O mesmo guia dos outros dias no acompanhou, a Fátima foi conosco.
Chegando na Laguna o guia deixou bem claro para não mergulhar a cabeça, pois a água era muito salgada e podia irritar muito os olhos. Assim que saímos da van, nos decepcionamos, parecia que estávamos no Piscinão de Ramos, tinha muita gente. Já que estávamos lá, então vamos mergulhar, né? O Nairo não quis entrar na água e o Ri não entrou por causa da meia de compressão que ele ainda está usando após uma cirurgia na perna.
O que o guia fez questão de deixar claro? Pra não mergulhar! E o que o RicardoM fez? Mergulhou! Isso mesmo, o malucón mergulhou, mas disse que não sentiu a forte ardência que o guia disse.
Assim que entramos na água, eu e Fátima, tratamos logo de experimentar pra ver se era mesmo tão salgada, e num é que era mesmo. Ficamos na água um tempão. Por cauda da alta quantidade de sal, a gente não afunda, pode fazer o esforço que quiser, que não consegue afundar. Dava até para ficar de pé na água, mesmo os pés não alcançando o chão, sem fazer força alguma. Nós corremos submersos. Que sensação legal. Nadamos de um lado pro outro até o guia nos chamar par irmos embora. Saímos da água e o guia no jogou um spray de água doce, que na verdade não serviu pra nada, tão fraco era o jato.
O RicardoM adorou tanto quanto eu, e me senti aliviada de ter escolhido o passeio que era legal. Quando descemos da van achei que os meninos iam querer me matar.
Todos os passeios são feitos às quatro, justamente por causa do sol. Já eram umas cinco horas e o sol ainda estava bem forte, tanto que em minutos estávamos secos e cobertos de sal.
Entramos na van, de esbarrar os braços no Ri, que estava do meu lado, a pele ardia, parece que estava sendo lixada de tanto sal.
Depois fomos ao “Ojos de Tebinquiche”, são dois buracos imensos, que dizem não ter fim. O Ri logo chamou de “El privadón”. Uma coisa era muito legal do nosso guia, ele fazia sempre questão de ser um dos primeiros à chegar nos lugares, como tem sempre muita gente ao mesmo tempo, chegar primeiro significa tirar fotos sem tantas pessoas ao redor, ou sem nenhuma pessoa. Tiramos nossas fotos e quando vi, o RicardoM já tinha pulado de cabeça no “buracón”. Pulei também, mas de uma parte mais baixa, e logo que caí na água senti um fedor absurdo. Saí correndo da água morrendo de nojo. O vento já estava frio, o sol não estava esquentando tanto. Logo depois começou a chegar uma van atrás da outra e logo os dois buracos estavam cheios, e nós, prontos para irmos ao salar, a última parada. Quando perguntamos ao guia sobre o motivo pelo qual ainda não se sabe a profundidade dos buracos, ele nos explicou que os nativos não deixam nenhum pesquisador medir para continuar o mistério.
Nosso carro foi o primeiro a sair, portanto o primeiro a chegar no salar. Pudemos tirar fotos sem que aparecessem várias pessoas desconhecidas. Caminhamos bastante.
O guia e o pessoal da operadora de turismo também esqueceu de nos avisar pra levar chinelo, e eu e o Ri fomos de tênis. No começo comecei a caminhar descalça no sal, mas machuca muito, a opção foi molhar o tênis.
O RicardoM resolveu caminhar até o final do salar. Todo mundo falou que ele era louco, pra não ir. E adiantou?
O Nairo e o Ri voltaram pra van. Eu e Fátima ficamos caminhando, conversando sobre Gabriel. Por várias vezes tive que me segurar para não chorar. Ver aquela mãe falando dos detalhes da morte de seu filho me emocionaram demais. Que força tem essa mulher. Ela contou que seu filho foi encontrado num ninho de folhas que ele havia feito para atenuar o frio, imagino como deve ser difícil para uma mãe saber que seu filho morreu de frio, a quilômetros de distância de seus braços.
Conversamos muito. Foi um momento muito especial dentro da viagem. No meio de tanta beleza, tantos detalhes...
Quando chegamos na van, o guia tinha montado uma mesa com salgadinhos, refrigerante e Pisco Sauer. O Ri e o Nairo já estavam com os copinhos na mão. Primeiro tomei uma coca, depois caí no Pisco também.
O RicardoM chegou de sua caminhadinha. Ele disse que estava difícil caminhar com a água um pouco abaixo do joelho, o chinelo queria subir e ficava saindo do pé. Sua intenção era voltar pela grama, mas estava mais difícil, pois a grama estava dura e machucava muito, e acabou voltando pela água. Suas mãos estavam brancas de sal. Exercício suave pra quem costuma subir todos os dias 24 andares de escada. A recompensa pelo esforço foi Pisco.
Bebemos enquanto o sol se punha. Mais um espetáculo de cores que tivemos o privilégio de assistir.
Entramos na van para voltar pra San Pedro e o espetáculo do pôr-do-sol continuava com a lua admirando. Não consegui fotografar direito.
Os Ricardos desembestaram a falar abobrinhas. Foram o caminho todo, quase uma hora falando uma besteira atrás de outra. O Nairo estava fingindo que nem conhecia os dois. Realmente eles estavam sem controle. O bom é que só tinha um casal de brasileiros, todos os outros eram chilenos ou argentinos, portanto não entenderam as bobagens que eles falavam.
Chegando fomos pro hotel tomar banho e se trocar pra jantar, afinal estávamos imprestáveis, principalmente o RicardoM. Como meu tênis estava muito molhado, fui descalça da operadora até o hotel, o chão das ruas de San Pedro é feito de pedras e à noite, já passava das dez, as pedras ainda estavam quente.
Nos encontramos com a Fátima pra jantarmos juntos, no dia seguinte depois de visitar os gêiseres, iríamos partir. Rodamos, rodamos e rodamos e não conseguimos decidir em qual restaurante jantar, até que os restaurantes pararam de servir comida. Nosso única solução foi comer lanche no mesmo lugar da primeira noite, já que era o único que servia comida até mais tarde.
Enquanto estávamos sentados na mesa esperando os lanches chegarem, uma turma de “artistas” invadiu o bar cantando, tocando violão e uma louca de sapatilha de ponta, com cara de alucinada, subiu em cima da nossa mesa e ficou andando na ponta. Totalmente inconveniente. Não entendi o motivo. Será que para eles aquilo era algum tipo de arte? Muito mal gosto. No final a louca disse ao Ri ironicamente: “Son muy simpáticos”, não preciso nem dizer a cara de todos na mesa enquanto eles se apresentavam, né? Quando eles passaram o chapéu, o RicardoM de sacanagem deu uma moeda de R$1,00.
Fomos pro hotel e arrumamos tudo, ou quase tudo.


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